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Coisas da vida…

Dia de Finados

novembro2

Escrevi esse conto no ano passado e achei interessante postá-lo nessa data! Por favor, comentem! Obrigada!

Dia de Finados

     Quatro amigos costumavam se reunir todas as sextas-feiras à noite, a fim de contarem causos e assuntos da semana sobre a pacata Boa Vista, vilarejo onde moravam. E como sempre faziam, iniciaram a boa conversa, cheia de confidências e assuntos delicados envolvendo vizinhos e suas vidas íntimas. O local do encontro era o galpão velho que ficava nos fundos da casa dos pais de Alécio. Lá havia uma mesa de madeira antiga, carcomida pelos cupins, alguns banquinhos, ferramentas e outras encrencas que a família fora ali depositando. O que brilhava aos olhos de todos eram os pães, o queijo e a linguiça, de fabricação caseira, bem como o garrafão de vinho tinto produzido pela família de Julio (o qual trouxera escondido para dar um toque a mais à reunião). A conversa ia versando sobre a bela prima da Mariana que se preparava para a 1ª Eucaristia e, para isso, passava pela casa de Valêncio, todos os dias, de vestido florido, a fim de estudar o catecismo. Nesse andar católico, a moça deixava o aroma de seus cabelos lavados com o sabonete mais cheiroso da venda de seu Juca. Valêncio não parava de elogiar os atributos da senhorita até que Rui mudou o rumo da prosa, lembrando que era véspera de Finados e, nada melhor, que contar causos mais assombrosos. Sempre havia muito o que falar, nem que fosse invenção da hora, valia tudo pra esticar a conversa e passar mais tempo com os companheiros. Acontece que Valêncio, inesperadamente, saltou do banquinho rústico e com seu sorriso matreiro propôs a seguinte questão: já que amanhã é dia dos mortos, vamos visitá-los hoje e perguntar quais serão os rumos que tomarão amanhã. Ninguém acreditava no que ouvia. O Valêncio era mesmo maluco. Onde já se viu ir ao cemitério em véspera de Finados? Só podia estar variando. O problema foi que o pessoal começou a gostar da idéia e mesmo com o pavor que isso representava, decidiram ir.

     A madrugada escura metia medo na caminhada. Parecia que os barulhos aumentavam de propósito e os arrulhos e coaxares faziam o estômago ficar apertado; as testas suavam, mas os olhos não escondiam o brilho de satisfação dos amigos ao preencherem o tempo com tamanha aventura. Julio, o mais moço, era o mais desesperado. Ia atrás dos outros, guiado por seus passos e sem coragem de emitir qualquer opinião sobre o risco que corriam: o maior desafio seria escapar da bronca dos mais velhos quando descobrissem a empreitada dos guris.

     O cemitério ficava numa lomba, era pequeno e mal cuidado. Poucas lápides encontravam-se em bom estado, a grama estava alta e cheia de urtigas. O cheiro de velas queimadas denotava o tom fúnebre do ambiente. A escuridão só não era total devido a alguns tocos de velas que ainda insistiam em existir. Talvez fossem chamas de rezas mais fervorosas ou almas melhores que ali jaziam. Alécio, instintivamente, começou a reunir os tocos de cera em uma lápide. Saiu catando pelo cemitério e pediu que os outros fizessem o mesmo. Sem entenderem o porquê da tarefa, Rui, Julio e Valêncio iniciaram o trabalho. Em poucos minutos, conseguiram reunir inúmeros tocos de velas que preenchiam três lápides e meia. Olharam-se desconfiados e inquietos. Não sabiam o que se passava na cabeça oca de Alécio. Mexer com vela não era boa coisa, ainda mais quando tiradas de seus destinatários sem nenhuma explicação. O frio da madrugada começou a castigar. Soprava um vento fino que ia cortando a pele desprotegida, atiçando ainda mais a tensão que o local proporcionava. Alécio, ofegante, propôs o seguinte empreendimento: acender os tocos de velas e ir colocando-os pelo caminho. Rui soltou uma gargalhada nervosa, acompanhado de Julio, cujo único desejo era correr pra casa, ir direto para o seu quarto seguro, se enfiar debaixo do cobertor e se esquecer do cemitério. Porém, não era bem assim que as coisas funcionavam. Guri nenhum podia dar uma de covarde, ainda mais participando dos encontros da sexta-feira. Tinha que ir até o fim e sofrer as consequências. Os quatro juntaram os pedaços de vela, deixando para trás o cemitério e rumaram em direção às residências. Conforme iam passando, acendiam os tocos e os colocavam sobre os muros, nos galhos das árvores, no chão, atrevidamente em algumas portas, nos buracos dos portões e, assim, formavam um caminho luminoso rua abaixo. Ao finalizarem a destemida imprudência, Valêncio começou a jogar pedrinhas nas janelas dos vizinhos para que acordassem e vissem a procissão iluminada.

     Não deu outra. Assustados, os vizinhos acendiam as luzes, abriam as portas e saíam pátio a fora à procura de ladrões. A preocupação maior eram as galinhas e patos que de vez em quando desapareciam deixando a família em falta. A essa altura dos acontecimentos os rapazes estavam escondidos entre os arbustos, na escuridão,  assistindo à cena macabra. Homens, mulheres, crianças e até os animais mais chegados não acreditavam no que viam. A gritaria inicial deu lugar ao choro e esse por sua vez deu lugar ao sinal da cruz e às rezas fortes. O povo de Boa Vista ficou em estado de choque. A visita inesperada dos mortos provocou rebuliço. Algumas senhoras beatas começaram a passar mal e precisaram ser acudidas às pressas. Os homens questionavam o porquê da visita dos falecidos, justificando o fato com suas culpas, dívidas mal resolvidas, casos de adultérios, maledicências e possíveis desafetos. As crianças achavam tudo muito lindo, brilhante. Afinal, a rua estava enfeitada como nunca antes. Parecia até uma festa, no caso, festa dos defuntos. Algumas casas haviam recebido mais velas do que outras e isso incitou a questão de tais residências terem um número maior de entes falecidos. Seu Juca, da venda, reuniu alguns moradores sugerindo o encontro na igreja, para que o padre os abençoasse contra qualquer maldição vinda do mundo subterrâneo. A prima da Mariana acudia sua mãe e chorava. Sua expressão tinha um misto de medo e inquietação. Na catequese nunca tocaram no assunto da vinda dos mortos e, muito menos, da visitação em Dia de Finados.

     Já lá se vão mais de quarenta anos do acontecido. Rui, Julio, Valêncio e Alécio seguiram rumos diferentes na vida. Seus encontros tornaram-se escassos até findarem de vez. Nenhum ouviu mais falar do outro. O que os mantinha em sintonia durante a passagem do tempo era o fatídico dia 02 de novembro. Podia ser o pior ano pra algum, ou o mais vindouro pra outro, porém, nessa época, seus pensamentos voltavam-se para a madrugada fria e iluminada de suas vidas. A madrugada em que pactuaram um segredo que os acompanhará até seus túmulos. Assim, morrendo um a um, morrerá também a verdade, a qual solucionaria os questionamentos, a angústia e o medo provocados com a passagem do calendário.

     O Dia de Finados ainda amedronta os mais valentes de Boa Vista.

Janaina Cé Rossoni

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10 Comentários para

“Dia de Finados”

  1. Comentário escrito no dia 02 de novembro de 2011 às 21:37 Adriele disse:

    Adoreii

  2. Comentário escrito no dia 03 de novembro de 2011 às 13:53 Daniela disse:

    muitoo bom!!! Adoreiii

  3. Comentário escrito no dia 04 de novembro de 2011 às 19:14 Ione Magnus Baronio disse:

    Adorei Janaína! Fiquei lendo, qual uma criança, ansiosa para ver o final.
    Tens, sem dúvida muito talento.
    Bjs. Ione

  4. Comentário escrito no dia 04 de novembro de 2011 às 21:08 Roberson Lima disse:

    Prof º muitoo bom seu conto Adorei , aposto que seria um sucesso no estòrias curtas da RBS , comigo entrerpetando o Alécio hehehe, muito Legal mesmo Parabéns !

  5. Comentário escrito no dia 04 de novembro de 2011 às 21:49 VERA REGINA SIMAS KUHN disse:

    Querida e doce Janaína!
    Gostei bastante do teu conto de Finados. Sabe, Charles Kiffer vai a nossa escola dia 22 de novembro. Eu fiz um trabalho da seguinte forma: pedi aos alunos que lessem um conto dele e depois ilustrassem com desenhos ou colagens para ver se o autor do texto adivinhará a qual de seus contos pertencem aquelas ilustrações. Estou te dizendo isto, porque acho que este teu conto é tão gostoso de se ler, que eu imaginava as cenas quando estava lendo. Continue escrevendo, acho que teu caminho é este. Beijos em ti e nas tuas lindas, agora, mocinhas. eheheh

  6. Comentário escrito no dia 04 de novembro de 2011 às 21:57 VERA REGINA SIMAS KUHN disse:

    Querida e doce Janaína!
    Amei teu conto. Sabe, fiz um trabalho com meus alunos: pedi a eles que lessem um conto de Charles Kiefer e o ilustrassem (desenhando ou com colagens) para o autor tentar adivinhar a qual de seus contos pertencem àquelas ilustrações. O autor estará na escola em 22 de novembro. Sabe porque estou te dizendo isto, porque quando lia teu conto ficava imaginando as cenas, eu ilustrei teu conto em pensamento e, como tu sabes, quando isto acontece é porque o que estamos lendo é muito bom. Parabéns, este é o teu caminho. Beijos pra ti e pra, agora, tuas mocinhas!….

  7. Comentário escrito no dia 05 de novembro de 2011 às 8:40 mariana disse:

    Oi!!!Super legal sua história mãe!!!Você com certeza tem muito talento!!!

    Beijinhos e Beijões da Mariana…

  8. Comentário escrito no dia 05 de novembro de 2011 às 20:38 Andryelle Spenazzatto disse:

    Achei muito Show.
    Parece uma boa idéia pra brincadeiras minhas da Aline e da Mari.
    Vai ser divertido.
    bjs e parabéns!

  9. Comentário escrito no dia 05 de novembro de 2011 às 21:24 Paty Reginatto disse:

    Adorei, Janaína! Parabéns!

  10. Comentário escrito no dia 15 de novembro de 2011 às 20:51 Maida disse:

    Contos com finais surpreendentes são lindos, o que não surpreende é o seu talento para escrever.
    Parabéns pela riqueza de trabalho
    Com carinho
    Maida

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